Inspira, expira e não pira!

Idiomas de expressão de muitas tradições religiosas costumam ter uma só palavra para designar os conceitos de espírito e de respiração ou alento divino que anima toda forma de vida: é assim no latim (spiritus), no grego (pneuma), no hebraico (ruach). Respirar conscientemente encoraja nossa alma a um verdadeiro milagre a cada segundo, a cada inspiração: abraçar a oportunidade de evoluir a cada pequeno momento disponibilizado pela vida.

Pare tudo o que você está fazendo agora e preste atenção na sua respiração. Inspire e expire profunda e lentamente. Este é o momento mais importante da sua vida: o sagrado aqui e agora, o único no qual você pode viver, sentir, ser e amar profundamente.

Como está a sua respiração agora? Profunda, abdominal, superficial? Muito bem… Sua respiração representa claramente sua ferramenta de comunicação com o outro e com seu próprio mundo emocional.  Segundo Hermógenes,

A ciência ocidental considera a respiração tão somente como um fenômeno fisiológico a mercê do qual o organismo utiliza o oxigênio do ar a fim de, com ele, efetuar as transformações químicas necessárias para que o sangue possa distribuir e nutrir todas as células. Sendo assim, parar de respirar é o mesmo que morrer. No Yoga, a respiração, no entanto, é muito mais que um fator fisiológico. E também psicológico e prânico. Em virtude de fazer parte dos três planos, fisiológico, psíquico e prânico, a respiração é um dos atos mais importantes de nossa vida. É por seu intermédio que podemos conseguir acesso a todos eles. Por outro lado, é ela o único processo fisiológico duplamente voluntário e involuntário. Se quisermos, podemos acelerar, retardar, parar e recomeçar o ritmo respiratório. É-nos possível fazê-la mais profunda ou mais superficial. No entanto, quase todo o tempo, nos esquecemos dela inteiramente, deixando-a por conta da vida vegetativa. (HERMÓGENES, 2007, p. 95) 

Observe que, quando você se estressa, fica tenso, ansioso ou nervoso, a primeira coisa que muda é a sua respiração. Se você respirar de forma lenta, pode alterar positivamente suas reações corporais e seu estado energético. A respiração é o que mantém você vivo, mas muitas vezes você não pensa na importância dela na sua vida. Estudos demonstram que utilizamos somente cerca de 60% de nossa capacidade pulmonar, o que indica que realizamos uma respiração alta, rápida e ansiosa, que propicia o desenvolvimento de diversas psicopatologias.

A profundidade, o ritmo e a intensidade de nossa respiração definem nossos processos internos. Olhar a respiração como um mero mecanismo fisiológico é o mesmo que não compreender que somos seres espirituais passando por uma experiência humana, ou seja, uma grande alienação. Pela respiração nos conectamos com profundos aspectos de nossa existência. Quando você movimenta a sua respiração, está movimentando todo o seu corpo e todo o seu ser junto com ela.

Respirar mal afeta nossa saúde em diversos níveis, podendo até levar à morte. Uma pessoa respira cerca de 23 mil vezes por dia. Se faz isso de forma errada, ela perde 23 mil oportunidades de inspirar saúde para o seu corpo a cada dia. Respirar bem nos alimenta de prāna, energia vital, e nutre todo o nosso organismo energeticamente. Respirar corretamente traz saúde e vida.

O nascimento é um dos primeiros traumas de vida de um ser vivo. Com ele, ocorre o primeiro grande impacto, tanto físico (especialmente em sua coluna) quanto psicológico, saindo de sua zona de conforto e segurança e acessando pela primeira vez, um novo mundo, completamente desconhecido. Renascer significa literalmente ‘romper com o cordão umbilical’, momento em que se inicia nosso primeiro desafio respiratório, bem como nosso primeiro passo para nossa independência nesta morada chamada Terra. Repentinamente, nosso espírito se vê obrigado a desenvolver funções fisiológicas, emocionais e anatômicas, até então desconhecidas, para garantir sua sobrevivência.

Em nossos primeiros anos de vida, ainda conectados com a nossa natureza interior e desintoxicados das “distrações” do plano material, desenvolvemos uma respiração mais harmônica e conectada com um ritmo que beneficia a saúde. Não podemos generalizar, mas bebês e crianças, em sua maioria, são menos vítimas de estresse, ansiedade e outros condicionamentos negativos extremamente presentes na vida adulta e alimentados por nossa cultura altamente ansiosa e hiperativa, que impacta diretamente a qualidade da respiração.

O bebê traz consigo qualidades inatas de harmonia, tranquilidade e conexão com a vida. Gradativamente, seu sistema nervoso simpático vai sendo estimulado para que os músculos se movimentem e se fortaleçam. Entretanto, em determinada fase de seu desenvolvimento, a criança começa a ser condicionada a mudar seu padrão de respiração pelos familiares, pelas neuroses herdadas, pela educação, pelo modelo de aprendizado, pela competitividade, pela cultura, pelas relações sociais estabelecidas. E ela acaba perdendo sua respiração abdominal e sua tranquilidade.

Precisamos aprender a ser criança novamente! Precisamos conectar-nos com o todo, permitindo que o universo haja como a grande mãe que fornece o alimento espiritual necessário para nos manter fortes e saudáveis. Precisamos acolher a criança que habita em nós, junto com tudo o que ela tem a nos ensinar. Reaprender a respirar é mais do que um dever para com nosso próprio corpo e evolução pessoal. É um chamado de nossa alma para resgatar a saúde e o equilíbrio. Ao exercitarmos corretamente os quase 23 mil movimentos respiratórios diários, projetando a barriga para fora e para dentro no vaivém do diafragma, conseguimos massagear nossos órgãos abdominais, melhorar nosso metabolismo, reduzir o estresse e a ansiedade, além de desenvolver o autocontrole e a conexão com nosso coração.

O que é um prānāyāma?

A respiração é o que inicia e o que encerra nossas vidas. Podemos nos manter vivos sem nos alimentar e beber água por alguns dias, sem nos relacionar com as outras pessoas, sem enxergar, sem ouvir ou sem caminhar. Mas sem respirar, literalmente daríamos nosso último suspiro em menos de 3 minutos.

A respiração está associada também a todas as formas de expressão e movimento, inclusive ao dinamismo dos processos mentais; por isso, pode conduzir à meditação ou a outros estados de consciência, propiciando até mesmo o acesso ao inconsciente (BORELLA, 2007). Os exercícios respiratórios têm registros antigos em todas as partes do globo. Com benefícios comprovados por vários estudos científicos, os exercícios respiratórios vêm sendo cada vez mais utilizados nas áreas complementares e nas tradicionais de saúde, como a Fisioterapia, a Psicologia, a Educação Física, a Fonoaudiologia, a Enfermagem e a Medicina.

Segundo Jung, o Yoga

[…] liga o corpo à totalidade do espírito, coisa que se pode ver claramente nos exercícios de pranayama, onde o prana é ao mesmo tempo a respiração e a dinâmica universal do cosmos. Como a ação do indivíduo é ao mesmo tempo um acontecimento cósmico, o assenhoreamento do corpo (inervação) se associa ao assenhoreamento do espírito (da ideia universal), resultando aí uma totalidade viva que nenhuma técnica, por mais científica que seja, é capaz de produzir. Sem as representações da ioga, seria inconcebível e também ineficaz a prática da ioga. Ela trabalha com o corporal e o espiritual unidos um ao outro de maneira raramente superada. (JUNG, 1982, p. 55)

Prānāyāmas [do sânscrito prāna, ‘energia vital’ + ayāma, ‘expansão’, ‘ampliação’] são exercícios respiratórios que objetivam absorver e ampliar o nível de energia vital em nosso corpo, de modo a termos controle sobre essa energia. Respirar plenamente exige que utilizemos toda a estrutura ósseo-muscular do nosso tronco, o que aumenta a elasticidade dos pulmões, a capacidade cardíaca e a mobilidade do aparelho muscular-respiratório e, consequentemente, propicia maior absorção de oxigênio, purificação do sangue e revitalização de todo o organismo. A respiração profunda massageia os órgãos internos, estimula o bom funcionamento de todo o corpo e favorece a homeostase. Esses são benefícios físicos; os prānāyāmas, porém, propiciam muito mais do que isso.  Quando falamos de prānāyāmas, estamos falando de energia que confere vida. Prānāyāmas são, portanto, meios de aumentar a vitalidade. São descritos nos Yogasūtras , de Patañjali, como “práticas de controle das forças sutis”, o que é confirmado pelo Hatha Yoga de Pradīpikā, um guia clássico do século 14 para a prática de Hatha Yoga:

(II: 2) Se o vento [VĀTA] for irregular, a mente [CITTA] será irregular; quando [a respiração] ficar regular, tornará [a mente] regular. O YOGIN atingirá a estabilidade pelo controle do vento [VĀYU].

(II. 3) Enquanto o vento [VĀYU] está firme no corpo, ele é chamado de ser vivo, e de morto naquele em que não atua. Portanto, deve-se controlar o vento [VĀYU].  

[…]

(II: 5) Quando se limpam todas as impurezas das NĀDĪS e dos CHAKRAS, então o YOGIN poderá adquirir controle sobre o PRĀNA.

(SVĀTMĀRĀMA apud MARTINS, 2017, p.59-60)

Prāna, a energia vital

Segundo De Carli (2006), ki é a energia vital que flui em todos os organismos vivos. Essa energia é captada, produzida e armazenada pelo corpo, e sua quantidade determina o grau de saúde de uma pessoa. Quando o ki deixa o organismo, a vida cessa; portanto, o ki é uma energia essencial para vida na Terra. Tudo o que tem vida contém ki e o irradia: o ki é a energia biomagnética da aura. Essa energia recebe nomes diferentes em cada cultura: na Índia é prāna, nos países islâmicos é baraka, na China é chi, no Japão é ki. Os polinésios a chamam de mana, os índios americanos de orenda, os judeus de ruach. Pitágoras a chamava de fogo central, Hipócrates de fogo interior, os alquimistas de fluido da vida, Mesmer de magnetismo, Reich de orgônio, a antiga União Soviética de energia bioplasmática. É oriunda do Sol, e pode ser captada da radiação desse astro, de alimentos frescos, do ar e também de aplicações do Reiki.

O aroma

Ao contrário do que muitos pensam, incensos não são nem um pouco adequados para se inalar. E alguns estudos já demonstram que eles podem ser tão tóxicos quanto os cigarros. Portanto, ao realizar exercícios respiratórios, opte por aromas e óleos essenciais naturais, que além de relaxarem e serem extremamente agradáveis, ainda são terapêuticos.

DICA DA AILLA

O óleo essencial de lavanda

Caso você precise optar um óleo essencial para inalar, opte pela essência da lavanda. Ela tem diversas propriedades terapêuticas: ação antifúngica, analgésica, anti-inflamatória, bactericida, sedativa, cicatrizante e, especialmente, calmante. O óleo essencial de lavanda é um dos únicos que pode ser aplicado diretamente sobre a pele e é comumente utilizado para aliviar tensão muscular, estresse, ansiedade e insônia. Pesquisas científicas comprovam a ação ansiolítica da lavanda, apontando que ela é tão eficaz quanto o benzodiazepínico lorazepam, porém, com o benefício da ausência de dependência e síndrome de abstinência (SILENIEKS et al., 2013). Estudos demonstram sua eficácia em adultos com desordem de ansiedade generalizada (WOELK; SCHLÄFKE, 2010) e também em situações de estresse pós-traumático, apontando significativa redução do estresse em voluntários humanos submetidos à inalação do óleo essencial (Lavandula angustifolia). Isso porque ela reduz o influxo de cálcio nos terminais pré-sinápticos em neurônios hiperexcitados pré-sinápticos do hipocampo, e a liberação de neurotransmissores excitatórios, como o glutamato (CARRASCO et al., 2013; SCHUWALD et al., 2013).

Em minha Clínica, localizada em Belo Horizonte, oferecemos cursos e aulas grupais e individuais de respiração. Venha conhecer nosso trabalho, realizado com muito amor! E se você mora em outra cidade, continue nos acompanhando em nossas redes sociais, pois frequentemente oferecemos gratuitamente aos nossos seguidores diversos conteúdos relacionados à respiração e outras práticas integrativas de saúde.

Realize o exercício respiratório “Nādī Shodhāna Prānāyāma” disponibilizado abaixo e desenvolvido especialmente para você! Para realizá-lo, opte por um ambiente mais tranquilo, evitando interrupções. Eu espero que você goste! E se você gostar, registre seu comentário, curta e compartilhe com seus amigos.

Namastê!

Com amor,
Ailla Pacheco.

 

REFERÊNCIAS:

BORELLA, A. et al. O livro de ouro do yoga. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

CARRASCO, J.L. et al. Análisis comparativo de costes del inicio de terapia conpregabalina o ISRS/ISRN en pacientes resistentes a las benzodiazepinas con trastorno de ansiedad generalizada en España. Actas Españolas de Psiquiatría, v. 41, n. 3, p. 164-174, 2013.

DE CARLI, J. Reiki universal. 10. ed. São Paulo: Madras, 2006.

HERMÓGENES, J. Autoperfeição com Hatha Yoga: um clássico sobre saúde e qualidade de vida. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007.

JUNG, C. G. Psicologia e religião oriental. Tradução Mateus Ramalho Rocha. 2. Petrópolis: Vozes, 1982.

MARTINS, R.  Hatha yoga de Pradīpikā: uma luz sobre o Hatha Yoga. São Paulo: Mantra, 2017.

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Por |2018-07-27T14:14:43+00:00julho 27th, 2018|Artigos para o Blog|1 Comment

Sobre o Autor:

Ailla Pacheco é Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Professora internacional de Yoga registrada no Yoga Alliance®, Mestre em Reiki, especialização com Johnny De Carli, no Peru, Terapeuta floral certificada pelo Bach Centre da Inglaterra. Aromaterapeuta e cromoterapeuta com certificação concedida pelo alemão Dr. Dietrich Gumbel, Mestre em hipnose clínica e regressão de memória, certificada pelos maiores institutos do mundo, entre eles American Board of Hypnotherapy, Hi Brain e Hipnose Institute etc... Confira a biografia completa na Página "Ailla Pacheco".

Um Comentário

  1. Valquiria3 de setembro de 2018 at 16:11 - Reply

    Oi boa tarde gostei muito deixa muito mas leve, a ansiedade passou Mas!!!Obrigada!!!

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