Neste artigo você vai aprender:

  • O que é Yoga.
  • Quais são os benefícios do Yoga.
  • O contexto histórico do Yoga no Brasil.
  • Os sistemas tradicionais do Yoga, que originaram diversas linhas.

Yogaḥ karmaṣu kauśalam.
(Yoga é a habilidade na ação.)
Bhagavad Gītā – II: 50

Atualmente, existem milhares de filosofias que oferecem exercícios meditativos, respiratórios e corporais extremamente eficazes para o autoconhecimento. Mas nunca se teve acesso a um manancial tão completo de práticas, obras literárias e filosofia como se observa no Yoga.

Comecemos por delimitar o sentido do termo Yoga. Etimologicamente, ele deriva da raiz yuj, ‘ligar’, ‘manter unido’, ‘atrelar’, ‘jungir’, que originou o termo latino jungere, jugum e o inglês yoke etc. O vocábulo Yoga serve em geral para designar toda técnica de ascese e todo método de meditação. (ELIADE, 1996, p. 20)

Yoga é uma filosofia de vida que se desenvolveu na Índia, ao longo dos últimos 4 mil anos, e uma prática que visa à identificação do ser humano com sua própria natureza (microcosmo) e à sua integração com o universo (macrocosmo). Serve como instrumento para que o indivíduo se autoconheça e possa alcançar a consciência do estado de iluminação (samādhi) e, assim, trilhar seu caminho em direção à libertação (moksha) e ao isolamento (kaivalyam), que pode ser compreendido como independência. Os textos antigos afirmam que “Yoga é samādhi” (iluminação), ou seja, a vivência do Yoga (a vivência do samādhi) visa conduzir o praticante ao objetivo dessa filosofia, que é moksha: a libertação.

O Yoga é uma ferramenta para se trilhar o dharma [do sânscrito, ‘aquilo que sustenta’, ‘aquilo que cada um deve ser segundo a vontade divina’, ‘aquilo que nos dá propósito de vida’], o caminho em direção à missão de nossa alma. É a prática (sādhana) da ação amorosa, da ação destinada ao cumprimento do objetivo da alma humana, para que ela se liberte dos ciclos de vida e morte (samsāra). Neste mundo, vivemos segundo uma série de padrões e modelos, e acabamos por nos identificar com o que pensamos que somos. O Yoga nos convida à vivência da independência, à desconstrução do que pensamos ser e à manifestação do que verdadeiramente somos, num trajeto de volta para casa, de volta para nós mesmos. Ele propõe uma experiência de reintegração com o Pūrusha ou Purușa, a essência cósmica que está dentro e fora de nós, a manifestação do Absoluto, a libertação das dualidades e a fusão com a unidade.

Na Índia antiga desenvolveram-se seis grandes escolas de filosofia, que objetivavam compreender e explorar a realidade.  O Yoga é um desses seis sistemas de filosofia ortodoxos (darśanas, dārsanas ou dārshanas) tradicionais da cultura hindu.

De todas as significações de que se reveste a palavra Yoga na literatura indiana, a mais precisa é a que se liga à “filosofia” Yoga (yoga-dārsana) tal como é exposta no tratado de Patañjali, Yoga-sūtra, assim como em seus comentários. Um dārsana não é evidentemente um sistema filosófico no sentido ocidental (dārsana = vista, visão, compreensão, ponto de vista, doutrina etc., da raiz drs = ver, contemplar, compreender etc.). Não obstante, não deixa de ser um sistema de afirmações coerentes, ligado à experiência humana – que se esforça por interpretar em seu conjunto —, tendo como objetivo “libertar o homem da ignorância”. (ELIADE, 1996, p. 21)

Segundo os sūtras de Patañjali (2015, p. 42), “Yogaç cittavṛttiniroḍhaḥ”, o que pode ser traduzido por “Yoga é o recolhimento dos meios de expressão da mente”. Encarnar neste planeta nos impõe de imediato o sacrifício de esquecer nossa verdadeira identidade, que já é iluminada e similar à perfeição divina. O Yoga é um convite, um verdadeiro presente para cessar as consequências das modificações geradas pela intervenção e doutrinação mundana — pelas armadilhas pregadas pela nossa mente, que já está adaptada aos parâmetros de uma sociedade ansiosa e imediatista —, interrompendo as oscilações e inquietudes do funcionamento mental.

O Yoga apresenta cinco sistemas principais, a saber:

  1. Jñana Yoga:a ciência da inteligência; sua ferramenta principal é o estudo.
  2. Karma Yoga: a ciência do dever; sua ferramenta principal é a doação ao mundo.
  3. Hatha Yoga: a ciência da vontade; suas principais ferramentas são os āsanas (posturas psicofísicas) e os prānāyāmas (exercícios respiratórios).
  4. Raja Yoga: a ciência da mente e da introspecção; sua ferramenta principal é a meditação. Esse sistema abrange também (a) o Mantra Yoga, a ciência do som, cujas principais ferramentas são os mantras, o poder dos cantos sagrados para a libertação da mente; e (b) o Laya Yoga, a ciência de cura de conteúdos negativos registrados na mente inconsciente; sua ferramenta principal é o relaxamento profundo,  que os dissolve e remove.
  5. Bhakti Yoga: a ciência da devoção; sua ferramenta principal é o cultivo do amor. Acompanha o praticante em todos os sistemas e só posteriormente aos demais foi caracterizado como um sistema próprio e independente.

Dentro de cada um desses sistemas, foram surgindo subsistemas e abordagens diferentes, que originaram mais de 170 linhas de Yoga, com enfoques e métodos distintos, o que confere ao praticante uma incrível oportunidade de optar por aquela com a qual mais se identifica. Esses diversos caminhos do Yoga não devem ser entendidos como exclusivos nem contraditórios, mas como elementos fundamentais que se completam e devem ser igualmente valorizados.

Como logo veremos, existe um “Yoga clássico”, “sistema de filosofia” exposto por Patañjali em seu célebre tratado “Yoga Sūtra”. E é deste “sistema” que é necessário partir para compreender a posição do Yoga na história do pensamento indiano. Porém, ao lado do “Yoga clássico” existem numerosas formas de Yoga “populares”, assistemáticas. […] no fundo, é o próprio termo Yoga que permitiu essa grande variedade de significações. Uma vez que, etimologicamente, “Yuj” quer dizer ligar, é evidente que o “liame” ao qual esta ação de ligar se refere pressupõe como condição primeira a ruptura dos “liames” que unem o espírito ao mundo. Em outros termos: a liberação não se realiza se antes não nos desligarmos do mundo, se não começamos por nos afastar do ciclo cósmico; caso contrário, jamais chegaremos a nos reencontrar nem a conquistar a nós mesmos. (ELIADE, 1996, p.20)

Como facilmente se percebe, o Yoga se baseia no princípio holístico, pois abrange e estuda todas as dimensões do indivíduo. Ele constitui uma disciplina integradora de todos os aspectos que abrangem a experiência humana. Fundamentado na educação e na saúde fisiológica e psicológica, ele fornece fortes alicerces para a construção de um mundo melhor, tanto interior, quanto exterior. Para ser devidamente compreendido, o Yoga deve, mais do que ser definido ou explicado, ser vivenciado.

Ao desenvolver a união consigo mesmo, o ser entra em contato com o Self e cuida-se integralmente, em uma abordagem holística, podendo, para isso, usar inúmeras ferramentas. O termo holístico [do grego holos, ‘integral’], aqui usado, refere-se a um cuidado que envolve o corpo, a mente, as energias, emoções e o espírito. Ao desenvolver a ligação com o universo, o indivíduo depara com a consciência cósmica (Ātman). O universo, nesse contexto, pode representar o próprio Eu, a natureza, o todo, o Absoluto, a divindade.

Para o corpo, são praticados os āsanas [pronuncia-se ássanas], isto é, posições psicofísicas nas quais se deve manter a estabilidade e o conforto. Para as emoções, são praticados os exercícios de controle respiratório, que induzem à tranquilização do ritmo cardíaco até que se possam atingir pausas conscientes, confortáveis e prolongadas. Para as energias, são executadas técnicas de purificação e limpeza de todo o organismo. Desse modo, torna-se possível alcançar o controle eficaz da mente e cuidar do espírito com técnicas de meditação e relaxamento, que beneficiam o processo de homeostase do ser em todos os seus aspectos.

Em minhas práticas, o desenvolvimento não é voltado para uma única direção: não me restrinjo a uma linha específica de Yoga, tampouco pretendo dizer que a minha forma de vivê-lo, ou a minha linhagem, seja a melhor. Ao longo de muitos anos de vivência, pude compreender que nenhuma linhagem é melhor do que alguma outra: os caminhos são diferentes porque as pessoas são diferentes, mas todos têm o mesmo objetivo, que é justamente a união e a libertação. Acredito que todas as linhas de Yoga são uma coisa só e que devemos integrar os conhecimentos, de forma que o praticante possa ter uma  profunda e completa experiência do Yoga.

O Hatha Yoga, que abrange a grande maioria das linhas de Yoga praticadas atualmente, busca a integração do indivíduo por meio do domínio interno e externo do corpo. Se pensássemos em uma árvore genealógica, teríamos, dentro desse ramo, a maioria dos braços e vertentes. Ele se popularizou no Ocidente e é visto por muitos como uma forma alternativa de atividade física. De fato, a prática das posturas do Hatha Yoga proporciona aumento da força muscular e da flexibilidade, e a melhora do equilíbrio, entre outras adaptações fisiológicas, contribuindo inclusive para redução do peso, da pressão arterial, assim como dos níveis de glicose e colesterol sanguíneos. Entretanto, enquanto o objetivo da ginástica é a saúde corporal, o do Yoga é a saúde psicológica.

Barros et al. (2014) registram uma interessante correspondência entre as recomendações dos sūtras de Patañjali e os benefícios da prática do Yoga para a promoção da saúde:

Patañjali, no século II a. C., sistematizou o Yoga em oitos partes: 1) yama, as abstinências (não violência, veracidade, honestidade, não perversão do sexo, desapego); 2) niyama, as regras de vida (pureza, harmonia, serenidade, alegria, estudo); 3) āsanas, as posições do corpo; 4) prānāyāma, o controle da respiração; 5) pratyāhāra, o controle das percepções sensoriais orgânicas; 6) dhāranā, a concentração; 7)dhyāna, a meditação; e 8) Samādhi , a identificação. (BARROS et al., 2014, p. 1036)

Ainda segundo Barros et al., entre os principais benefícios do Yoga para o campo da saúde observam-se:

a) contribuições físicas: o encorajamento de dietas mais saudáveis e a consciência corporal, especialmente para o envelhecimento e as doenças crônicas; b) contribuições filosóficas: desenvolvimento da capacidade contemplativa e expansão da percepção da totalidade, que constituem a base do movimento holístico ou a noção do cuidado integral (dimensões biológica, psicológica, sociológica e espiritual); e c) contribuições sociais: associadas à construção de uma nova sociabilidade: i) desenvolvimento de cultura de paz (prática da não violência) e estilos de vida e valores que promovem uma maior tolerância entre grupos étnicos, gêneros e classes sociais; ii) reeducação de hábitos associados com os vícios legais (medicação, alimento, álcool, tabaco, trabalho, sexo, etc.) e ilegais (drogas ilegais, jogo, etc.). (BARROS et al., 2014, p. 1036)

Yoga, contudo, não é apenas mais um tratamento para vencer ou prevenir doenças. Yoga é uma filosofia, que até contribui para manter a saúde, mas que objetiva o autoconhecimento, porque acredita que, no interior de cada ser, existe absolutamente tudo aquilo de que ele precisa para se autodesenvolver. O praticante não deve buscar no Yoga um caminho de cura agenciada por um professor ou guru, mas sim um caminho de volta para si mesmo, um caminho em que ele é seu próprio agente de cura. São inegáveis, porém, as contribuições psicofísicas que a vivência do Yoga oferece a seus praticantes:

Dessa maneira, é clara a relação da filosofia do Yoga com a Promoção da Saúde, sendo sua grande contribuição a oferta de formas de cuidado para condições crônicas relacionadas a fatores físicos e psíquicos, para as quais os recursos do modelo de cuidado biomédico têm alcançado pequenos resultados. O Yoga também tem sido aplicado com bons resultados na área laboral, com diferentes desenhos de programas, principalmente em redução do estresse, qualidade do sono e variabilidade do ritmo cardíaco; fortalecimento da vitalidade em profissionais que trabalham em hospitais; estresse laboral, ansiedade e humor em trabalhadores de período integral; e fitness funcional e flexibilidade. (BARROS et al., 2014, p. 1036)

Para Fields (2002), o grande marco do advento do Yoga no Ocidente se deu com a chegada de Swami Vivekananda aos Estados Unidos, em 1893, quando ele proclamou, em Chicago, os méritos do Yoga no parlamento do mundo das religiões. Assim como ele, outros professores de Yoga vieram da Índia ao Ocidente, como Paramahansa Yogananda, que, nos anos 1920, esteve compartilhando sua filosofia em Boston, e Indra Devi, que, em 1947, desembarcou na Califórnia. Ao mesmo tempo, os ocidentais iniciam uma peregrinação, viajando ao Oriente em busca de conhecimentos espirituais, como Paul Brunton e René Guenon, nos anos 1930, Ram Das nos anos 1960, e muitos outros que os seguiram depois (FIELDS, 2002). No final do século XIX e no início do século XX, surgem muitas traduções de obras sobre a Índia e o Yoga, e proliferam autores como Max Mueller, Deussen e Danielou, que deixaram referências para a transliteração do sânscrito e criaram cadeiras de sânscrito no Ocidente. Em 1933, Mircea Eliade apresenta a primeira tese acadêmica sobre o Yoga no Ocidente, na Universidade de Bucareste; em 1943, Theos Bernard defende tese sobre o mesmo tema na Universidade de Columbia, Estados Unidos. No Brasil, Caio Miranda, oficial militar, começa a ensinar Yoga nos anos 1940, no Rio de Janeiro, e em 1960 publica o primeiro livro sobre o assunto: Libertação pelo Yoga (FIELDS, 2002). Percorrido todo esse trajeto, o Yoga consegue, então, alcançar reconhecimento por parte de diversos campos do conhecimento e instituições, como o Ministério da Saúde brasileiro, que o reconheceu oficialmente como uma Prática Complementar de Saúde em 2003.

É importante enfatizar que, é uma tarefa difícil descrever em poucas palavras o que é o Yoga, contemplando toda a sua filosofia e todos os benefícios que ele proporciona, pois eles dependem de uma experiência pessoal e subjetiva, tornando-se portanto essencial vivenciar o Yoga, para então compreendê-lo.
Pratique Yoga e transforme sua vida!

Com amor,
Ailla Pacheco.

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REFERÊNCIAS:

ELIADE, Mircea. Yoga, imortalidade e liberdade. São Paulo: Palas Athena, 1996.

GOVINDAN, M. Kriya yoga sutras of Patanjali and the siddhas. St. Etienne de Bolton, Quebec: Kriya Yoga Publications, 2001.

FIELDS, G. P. Religious Therapeutics, Body and Health in yoga, ayurveda, and tantra [Terapêutica religiosa, o corpo e a saúde em yoga, ayurveda e tantra]. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 2002. Resenha de SIEGEL, P.; BARROS, N. F. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.12, n.6, p. 1747-1748, nov./dez. 2007.

BARROS, N. F. et al. Yoga e promoção da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.19, n.4, p. 1305-1314, abr.2014.

Por |2018-07-02T07:50:50+00:00maio 29th, 2018|Artigos para o Blog|6 Comentários

Sobre o Autor:

Ailla Pacheco é Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Professora internacional de Yoga registrada no Yoga Alliance®, Mestre em Reiki, especialização com Johnny De Carli, no Peru, Terapeuta floral certificada pelo Bach Centre da Inglaterra. Aromaterapeuta e cromoterapeuta com certificação concedida pelo alemão Dr. Dietrich Gumbel, Mestre em hipnose clínica e regressão de memória, certificada pelos maiores institutos do mundo, entre eles American Board of Hypnotherapy, Hi Brain e Hipnose Institute etc... Confira a biografia completa na Página "Sobre" e descubra como Ailla Pacheco é capacitada para servir.

6 Comentários

  1. Suzilaine18 de junho de 2018 at 19:58 - Reply

    Adorei!!!

  2. Elizabeth18 de junho de 2018 at 21:27 - Reply

    Fantastico

  3. José Luciano19 de junho de 2018 at 07:48 - Reply

    Excelente!!!

  4. Débora Ribas Rodrigues22 de junho de 2018 at 21:42 - Reply

    <3

  5. Thais Lunardi24 de junho de 2018 at 21:23 - Reply

    Muitoo boom professora!!!! Obrigada por compartilhar!!!! ❤ Namaste

  6. Thais Lunardi24 de junho de 2018 at 21:30 - Reply

    Muito bom professora! Obrigada por compartilhar! ❤

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